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Diversidade e Inclusão: Uma questão que começa na infância!

julho 27, 2018
Tempo de leitura 12 min

Muito se fala sobre diversidade e inclusão social no mundo corporativo. Mas esse é um tema que começa na infância. Como é a aceitação e a auto estima de uma criança que é diferente dos demais? Esse é um depoimento pessoal sobre inspiração, auto confiança, é um relato do dia a dia sobre o que nos move todos os dias! E garanto: vale a leitura!

Ele nasceu com peso acima da média. Na verdade, percentil 90 como dizem, o que quer dizer que era mais pesado que 90% que os bebês do mesmo tamanho que ele. Quando nasceu, em um mês engordou 2 kilos, somente com leite materno.

Ele já fez vários exames. Até hoje, nada errado. Talvez seja apenas a famosa genética. Eu mesma já emagreci 36 kg. Já pesei 92 kg com 23 anos. Sei exatamente o que é ser gorda e ter que viver todos os dias de dieta. É um controle 24 horas por dia. Sei como é as pessoas te olharem com preconceito e dizerem coisas a seu respeito.

O Michel come bem, mas avaliando em detalhes, nada que justifique o quanto ele pesa. Comparado a outras crianças da idade, que comem um monte de besteiras, ele come bem menos, mas pesa muito mais.
Nossa vida é um malabarismo: não entra doce em casa, nada de salgadinhos, nada de refrigerantes. Evito ao máximo exposição a alimentos calóricos. Ele faz atividades físicas praticamente todos os dias. Ponto. É isso.

Eu confesso que a maior dificuldade foi conviver com um medo que eu já tinha: o medo dele não ser aceito. E por que? Porque eu sofri muito com isso na idade escolar. Eu fui filha da diretora da escola. E eu te pergunto: você seria amigo da filha da diretora da escola e contaria para ela as artes que iria fazer? Óbvio que não! E então, além disso, falavam tanto das minhas notas que nem eu sabia se eu as merecia. E sofri outras coisas: estudei numa escola só de meninas que me excluíram porque eu era estudiosa demais, minha saia era comprida demais, fui excluída do grupo das meninas porque fugia do padrão de beleza, enfim coisas de crianças e adolescentes, mais que tive que me virar para ser aceita. Eu vivi o preconceito.

Eu tinha MUITO medo que meu filho passasse de alguma forma pela mesma coisa.

Michel foi criado no meio de adultos e era tímido. E era “gordinho”. Tinha pouca capacidade de se defender em situações de confronto com crianças, porque sua capacidade é de argumentação. E é claro que, como já era de se esperar, um dia chegou em casa dizendo que alguém o chamou de gordo, em outro dia de bolota, em outro dia de “baleia” e por aí vai. E como era tímido demais, não se posicionava.

Mas o pior foi quando ele me disse que era o último a ser escolhido no futebol. E, te conto, ele não era bom no futebol. Pra dizer a verdade, ele era ruim. Ruim e lento, de verdade. Para ajudar, moramos num apartamento pequeno, infinitamente menor do que os dos amigos. Então, ele era bem fora do estereótipo de um menino da idade e da escola dele.

Eu acho que foi naquele momento em que ele chegava em casa com o preconceito latente e com o sentimento de rejeição que eu busquei forças para trabalhar isso nele, para fortalece-lo. Conversávamos bem abertamente e eu tentava fazer com que ele primeiro compreendesse que as pessoas são diferentes, depois que, não somos bons em tudo. Ele possui uma capacidade de expressão ímpar e um raciocínio matemático impressionante. Mas também buscava desesperadamente que emagrecesse. Buscava de forma natural, buscava tirando o prato da mesa quando ele distraia, enfim, malabarismos.

Mas o que eu mais queria, era que ele fosse feliz. Feliz, sabe? De verdade feliz. Que aceitasse quem ele era.

A pediatra sempre diz que eu sou muito preocupada. Que ele vai crescer e estirar, que tem idade óssea atrasada. Mas todos sabemos como é conviver com comentários como esses na escola. E enquanto ele não estira? Como fica a auto imagem dele? Ele teria amigos? Seria feliz? E o que a escola fazia com relação a diversidade: te conto que o discurso é bem diferente da realidade. A escola não fazia nada, além de claro, oferecer atividades óbvias que só estão de acordo com o interesse e talento da maioria. Então, eu trabalhava para que o Michel olhasse sempre para o positivo.

Porém, um dia, eu entrei em casa e algo incrível aconteceu: Michel me disse que queria mostrar-me algo. Ele colocou play num vídeo do YouTube do Michael Jackson e o que eu vi ali me deixou boquiaberta.

Meu filho dançava perfeitamente no ritmo e imitava os movimentos de forma impressionante.

“Desde quando ele fazia isso? Quantas vezes ele viu o vídeo? O que ele sabe de Michael Jackson?”

Paula, a babá, havia mostrado o vídeo naquela tarde e ele encantou-se e decidiu que iria dançar aquilo.

Estava decidido como se não houvesse nada mais a fazer na vida.

E aquilo não passou. Ao contrário, cada dia que eu chegava em casa, Michel fazia algo ainda mais incrível, imitava de forma mais graciosa e estava empenhado a dançar. Ele treinava e treinava, aquilo era importante para ele. Ele estava determinado e dedicado de verdade a um sonho.

 

Então, um dia, quando ele tinha 6 anos, fomos a um resort de férias. E a equipe de monitoria organizou um show de talentos e convidaram Michel a subir no palco. Na hora “H”, ele me disse: “Eu não vou. Eu tenho muito medo”.

 

Foi quando eu senti que iria transmitir um aprendizado a ele muito importante sobre o que queremos na vida. Fiquei bem na altura de seus olhos e perguntei com muito amor: “Você tem mais vontade de dançar ou mais medo?”. Ele sorriu e respondeu sem hesitar: “Mais vontade…mas tenho muito medo”.

 

Eu disse: “Ahhh…muito bem então! Então sobe lá, põe esse medo debaixo do braço e vai com ele mesmo. E lembra do Michael Jackson…INSPIRE-SE nele e você vai arrasar. E eu estarei com você para realizar seu sonho.”

 

Ele tinha muita vergonha e medo. Mas tinha muito mais vontade. E encorajado subiu ao palco tímido. Eu confesso que eu estava apreensiva, mas muito feliz. Ele foi se soltando aos poucos e foi muito aplaudido. Sua reação depois foi indescritível. Ele estava realizado e feliz. Ele tinha sido aceito por algo que ele fez e do jeito que ele era.

Era o que eu precisava: vê-lo feliz. Desse dia em diante, eu o joguei no palco inúmeras vezes: viajamos a outras cidades, estados, de carro, de avião, eu vou a qualquer lugar, sem importar o tempo, o esforço ou a distância, que tenha um palco e pelo menos uma pessoa na plateia (que pode ser eu), que possa assisti-lo. Imagina que enquanto alguns pais ligam em hotéis buscando saber se há piscinas, quadras, eu ligo para saber se possuem palco e quantas vezes ele poderia se apresentar.

Depois de vê-lo dançar mais algumas vezes, o medo aparecia muitas vezes. E eu repetia todas as vezes: “Sobe lá com o medo mesmo!”. E ele subia, cada vez mais empoderado e era cada vez mais aplaudido.

Quando o Michel dança, existe uma luz inexplicável. Ele se fecha num mundo dele e parece que o tempo para e, ao mesmo tempo, ele ilumina todo o resto do palco e da plateia porque você vê talento, você vê empenho, você vê amor, você vê coragem, você vê diversidade. Dá pra ver tanta coisa quando ele está dançando que é muito emocionante.

Eu não consigo explicar em palavras. Dá pra ver que não é um menino exibido e extrovertido. É o sonho de alguém tímido e talentoso e que quer muito estar ali. E ele não dança para você somente, ele dança para ele. Ele quer estar ali. Ele quer muito.

 

E o mais maravilhoso: ele ainda nem se da conta de quanto é incrível. E quando ele desce, um monte de gente quer falar com ele, quer apertar a mão dele, quer dizer que ele é espetacular, mas ele é humilde, ele é natural, ele é criança e ele é um show, ele tem sede e ele já quer brincar de outra coisa.

 

Quem me conhece sabe que parte de meu trabalho é realizar sonhos e fazer o impossível acontecer e fazer bem feito!

 

Procurei pelo melhor cover do Michael Jackson, o Rodrigo Teaser, e pedi que ensinasse ou indicasse alguém que pudesse ensinar meu filho a dançar “Michael Jackson”.

 

Ele me indicou o coreógrafo de seu próprio show e Michel começou a ter algumas aulas quando sua agenda estava livre.

Rodrigo Teaser, começou a trazer Michel ao palco em seus shows, numa das vezes no Tom Brasil e haviam 3000 pessoas presentes. Ele tinha muuuita vergonha, mas muito mais vontade. Eu joguei ele palco acima quando foi chamado. Ele foi muito aplaudido e adorou a experiência.

Levei a um hotel maior, na Bahia, o Iberostar Praia do Forte e ele colocou o hotel abaixo. Ao subir no palco sozinho para aproximadamente 500 pessoas, parecia que ele entrava num mundo dele, um mundo em que estava muito conectado com o que queria fazer de verdade, com sua essência, um mundo em que ninguém mais podia entrar…e brilhava de forma inacreditável. Ele era muito pequeno, mas tinha muito brilho.

 

Nessa mesma viagem um garoto havia empurrado e xingado ele, eu quis defende-lo, mas ele me impediu. Naquela noite, ele dançou. E no dia seguinte, o menino estava atrás dele, encantado e querendo que ele o ensinasse alguns passos. O Michel tem essa coisa incrível de sorrir e não guardar mágoas. Ele ensinou o menino e brincou com ele. Aliás, ele já é bem carismático e a dança o torna muito popular.

Com 08 anos, dei para ele de aniversário, um encontro e um aula com o Lavelle Smith, que foi coreógrafo do Michael Jackson.

Em 2016, com 08 anos, por opção dele, ele fez mais de 10 apresentações, todas solo, em lugares que ele não conhecia. Ele tinha que chegar cedo, ás vezes dez horas antes do show, entrar, apresentar-se ao responsável pelo evento, marcar o palco, ensaiar, esperar pelos demais grupos que iriam tinham que fazer o mesmo, aguardar o horário do show, vestir seu figurino, tudo para se apresentar por três minutos para uma plateia desconhecida, sem saber o que iria acontecer.

Isso é medo? Eu costumo dizer para ele: é de uma coragem sem tamanho. Ás vezes, vamos a lugares desconhecidos para que ele dance, em praças públicas, outros estados e  não fazemos ideia de como será o palco, a luz, o som, ás vezes não há ensaio: ele tem que entrar e fazer. Quantos de nós têm essa coragem? E quantos de nós fazíamos isso com 08 ou 10 anos.

Cada vez que alguém xinga ele, porque isso ainda acontece, faço com que ele olhe para o outro lado, para o lado do que ele faz com o corpo dele, para os aplausos, para o sucesso. É isso que ele é. O resto são palavras.

 

Eu vejo agora um menino de 10 anos muito mais confiante, extrovertido, comunicativo, uma criança feliz que sabe que tudo é possível para ele. Um menino que se reinventou, que se aceita e que ama o que faz.Eu digo isso para ele e ele escuta o mesmo de muita gente. Mas mais do que isso eu tenho certeza que Michel está se preparando para muita coisa.

Na vida, quantas vezes, adultos, vamos a entrevistas, a apresentações para clientes, a apresentações para nossos chefes e sentimos um frio na barriga? Quando um rapaz vai falar pela primeira vez com uma garota sente ou não sente esse frio na barriga? Tenho certeza que para ele não vai ser tão desconhecido assim…

Ele enfrenta tantas coisas ao se apresentar e ganha tanto no palco que sabe que tudo é possível para ele.

 

Aprende que, com dedicação, amor e empenho, ele faz um excelente trabalho e é reconhecido. Ele escutou ensinamentos do Michael Jackson, vindos direto do coreografo dele, uma experiência intangível: foram horas de aula, de interação falando sobre como o artista queria a perfeição, como ele treinava, ensaiava, ensaiava de novo, o que fazia quando algo dava errado, etc. E o Michel tem imprevistos, muitos aliás, e ele diz: “eu pensei o que o Michael Jackson ou o Rodrigo Teaser fariam? E eu me inspiro neles.”

 

Mas, mais do que isso, sinto que meu filho aprendeu a aceitar quem ele é, mostrou ao mundo que pouco importa a aparência que tem, porque ele usa o corpo dele de forma extraordinária e faz o que poucos fazem: ele encanta com perfeição e humildade.

Que fique claro que não tenho nenhuma intenção que ele seja um artista, que pouco me importa que profissão ele terá, quero apenas que seja feliz e que esteja fortalecido para vencer os nãos que a vida dará para qualquer pessoa!

E vejo que ele é tão feliz no palco e fora dele, vejo que seguir um sonho para ele é mais importante que qualquer outra coisa e é isso que espero que o inspire por toda  sua vida!

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